"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade.
Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo"

terça-feira, 24 de maio de 2011

Do dia em que você subiu naquele ônibus..


Nós, nós corremos até o posto, eu lembro..
Você, desacreditada.. perdemos, disse intranquila
e nós corremos.
Mas antes, um pouco antes,
bem, na verdade o que eu tenho pra te dizer é de antes, de muito antes.
Antes de corremos, antes do posto.. bem antes.

De quando você tocava alguma coisa para alguém,
E eu já não me esforço agora para lembrar o que nem para quem... não lembro.
Lembro da tua saia branca, lembro do teu cabelo preso e até dos teus óculos escuros.. mas é só.
Lembro da certeza que tive ao pescar sua presença no meio de tantas e da forma como tentei me mostrar pra você.
Me perdoa, me perdoa por essa minha falta de atenção que me prendia a você,
que não me deixava notar as notas que tua boca suspendia, embora tua boca estivesse lá... disso eu lembro.
Da nossa primeira conversa efetiva, do nosso primeiro beijo.
Essa mesma falta de atenção que, depois, transformava tuas intenções na minha cabeça.
Do não fazia sim e nós funcionávamos bem, obrigado.
Eu cheguei ao ponto de te perguntar se as coisas caminhavam por que, às vezes, eu inventava de ficar atento e me ouvia ouvindo coisas que você não dizia.

Me pegava discutindo coisas que não existiam enquanto você ia, ali, martelando sua sensatez na minha falta de medida com palavras certas em doses homeopáticas de uma realidade diferente dá que eu quis pra nós. Pra você pareciam existir palavras certas e eu era um descompensado nesse jogo. Cantava alto pro mundo nos sorrisos os poucos sussurros que você me dava, e fazia dos outros poucos outras coisas absurdas. Radicalizava simplificadamente. Estranhava essa nossa falta de nexo que nos fazia reféns, dizíamos que “não mais” e noutrora estávamos nos desdizendo, dando sobrevida as confusões. Estranho, também, imaginar que na vez que falamos o contrário aí sim nos despedimos de fato e, até nisso, fomos incoerentes. Enquanto fazíamos sexo as coisas fluíam, o amor fodeu tudo. Te prometia algumas coisas que hoje posso afirmar: sandices de menino. Primeiro por serem promessas e já era hora de sabermos que determinadas coisas não se prometem, depois, por serem eloquentes tentativas de estreitar os laços, laços que, veja você, não foram dados.

Mas o que eu quero te dizer.. que eu ainda não disse, mas vou é de antes, de bem antes.

Minto quando disse que eu lembro do nosso primeiro beijo, eu não lembro do nosso primeiro beijo, nem de muitos que vieram depois... mas lembro do último.. um beijo que não deveria ter acontecido, que nós nos permitimos sem poder, que nos trouxe arrependimentos. Primeiro você, instantes depois, depois eu, dias atrasado. Para isso, também, nosso tempo foi outro. O nosso tempo era outro. Eu era novo na cidade e você tão sabida das ruas, você se formando e eu começando a me formar, você encerrando ciclos eu querendo vivê-los. É, nosso tempo era outro. Tanto que nos desencontramos. E eu cheguei a querer que fosse diferente: quis que meu telefone tocasse e fosse você dizendo qualquer bobagem, quis ver você amanhecendo outra vez no meu portão e quis mais, quis coisas que até hoje não tenho conhecimento que quis, mas que ninguém poderá dizer que não quis, porque, olha, eu quis.

Nós, nós corremos até o posto, eu lembro..
Você, desacreditada.. perdemos, disse intranquila
e nós corremos.
Mas depois, um pouco depois
bem na verdade o que eu tenho pra te dizer é de depois, pouco depois
pouco depois de você ter subido naquele ônibus, depois do motorista ter perguntado
“Seu namorado não vem?” e você ter respondido “Não, ele fica”.

Boa Viagem!! Vai! E se cuida.

e agora eu já disse.

12 comentário(s):

Ju Fuzetto disse...

Visualizei cada cena. As imagens se agrupavam e se misturavam a sentimentos de euforia, distração e cuidado. A despedida, os detalhes presos feito nó na garganta e a vontade de dizer o que nunca foi dito. Como se num piscar de olhos a imagem fosse apenas desenhada nos reflexos de alguém que vai sentir saudade!


Perfeito. Parabéns!

Paloma Alberto disse...

Primeiro: Valeu por ter atendido às pressas o meu pedido e ter postado palavras inéditas...
Segundo: O que você faz com as palavras é incrivelmente sensorial, você dedilha a memória e a torna coletiva... é impossível não se identificar!
Você radicaliza-minha-mente...

Vista-se (de sorrisos, você também)

Um beijo e um queijo
LomA =D

Gabriela Castro disse...

Que texto incrível, verdadeiro e real. Acredite: nele escontrei muitas respostas para alguns "porquês" que há tempos vinham me tirando a paz. Às vezes, a vontade de estar juntos existe, mas cada um tem o seu jeito, o seu tempo, os seus ciclos e também os seus defeitos. Fantástico! Beijão

Jaya Magalhães disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jaya Magalhães disse...

Às vezes, Matheus, eu me coloco como personagem da tua escrita. E isso me deixa tão envolvida com tudo, que eu consigo sentir cada vírgula do que você relata. Como se, por exemplo, as lembranças que você vestiu nesse alguém, tivessem a minha medida. Como se você me costurasse, guardando essa poesia em mim.

Às vezes também eu fico querendo que a gente possa sentar no meio-fio de uma rua qualquer e escrever. Sem papel, sem verbalizar, apenas sentindo. Dividindo. Multiplicando.

O amor é uma invenção tão bonita. Tão fodida. Tão ummotivoparaseescreverumtexto como esse. Esse, aqueles. A impressão que tenho é a de que sempre estamos falando sobre isso. E de maneiras deliciosas, por vezes. No seu caso: deliciosa pra caralho!

Obrigada por essa cena. Por isso tudo.

Ir, penso agora, também é uma maneira de se deixar ficar. Ficou, nós vimos.

Então, um beijo. Um abraço. E uma vontade de tomar um ônibus para que você leia, nos meus olhos, o quanto é bonito olhar depois de ter você, aqui. Assim. [Sempre saio enxergando mais. Mais vida, mais bonitices, mais motivo].

As Flores e Eu disse...

Adoro a perfeição com que descreve cenas. Viajo e quase toco o que leio.
Beijos

Lilly disse...

Sempre se utilizando de palavras incríveis. Sempre talentoso.
Sabe, isso me soou bastante familiar... gostaria até de pedir permissão pra publicar alguns trechos ou, se possível, até o texto todo no meu blog.
Só posso lhe dar os parabéns, Matheus.

devaneios tolos disse...

E agora é o Fim.

Lilian Ganzerla Cardoso disse...

Ainda abismada-contemplada, releio.
E agradeço.
Belo encontro. Belas palavras.

Singular, eu diria.

Bárbara Rigotti disse...

Senti ciúmes dessa..

Mari. disse...

Ai, ai, ai... Sabe, eu sempre acho que textos assim dispensam comentários. Não há quem comente bem mesmo um texto desses. São daqueles intactos, e que assim devem ficar eternamente.

* Essas palavras dariam uma ótima música.

:)

Luana H. disse...

Sutilmente dolorido.

E aquela sensação de que, felizmente ou infelizmente, a vida continua.