A luz está fraca, ao fundo sons de uma academia, voz da professora que grita. Palmas. Minha caneta azul me parece preta, a luz está fraca, já disse? Barulho de chaves na mão da moça que passa. Minha rua, Mato Grosso, não é movimentada nem desmovimentada demais, passaram por aqui dois casais agorinha. Um dos amantes falou, no intervalo de tempo que pude escutar, algo sobre aulas de skate, a moça riu. O outro, no minuto seguinte, revelou que fará academia. Deve morar por aqui. A professora continua gritando. Provavelmente ele não faça academia. Mania nossa de nos motivar em promessas que nunca cumpriremos, do contrário ele é mais disciplinado que eu, nunca fiz academia. Minto. Paguei um mês uma vez, fui dois dias e... esqueci. Meu corpo, não. Penso quantas vezes meus pulmões não se sentiram aliviados, porque, olha, eu prometi várias vezes parar de fumar. Prometi, mas nunca parei. Meu corpo sente. Eu consinto. Não paro. O moço da farmácia ontem tinha voz de locutor, estou gripado, mas hoje na volta pra casa chovia e eu não hesitei em me banhar. Pausa pra discutir o futuro. As coisas estão meio loucas agora. Estou fumando. Mudança. Estou de mudança. A Mato Grosso é uma passagem e eu estou passando. Preciso pensar no futuro. Preciso de um emprego. Mais um Zé que deixa a segurança do ninho almejando novos voos. Santo André me escolheu. Teatro. Sou ator. Me formando ator. Formação 15 da Escola Livre de Teatro (ELT). Meu nome está lá. Engraçado pensar que muitas coisas na vida são assim, questão de estar. O meu nome está, já disse? Eu tenho falado muita coisa e muita coisa que eu disse não faz tanto sentido agora. Sobre estarmos, eu nunca sei se existe um destino traçado ou se tudo não passa de coincidência, mas meu nome está lá. É simples na sua complexidade. Essas coisas paradoxais me despertam a atenção. Talvez seja isso, estar atento. Tenho tentado. Quando você abre os olhos para além do que os olhos podem ver surgem novas cores e uma buzina, como essa que tocou agora, te assustam e te fazem perder o raciocínio. Tenho tentado estar atento para além das buzinas, para além dos olhos. Um carro não é só um carro quando você percebe que tem alguém atrás do volante e que para alguém estar no volante outro alguém derrubou uma gota de suor ou apertou algum botão. Que pro fim há um meio que sucede um começo que também teve um começo e que tem gente que perde tempo tentando entender tudo isso. Tudo isso que somos nós, mas que em separados funcionamos bem, obrigado. Eu aceito. Aceito que gripes virão e com elas farmacêuticos com voz de locutor. Choverá alguma dia e eu vou me molhar outras vezes. Algumas eu vou querer me molhar, outras não, mas sobre determinadas coisas eu não tenho jurisdição. Acho que é a primeira vez que eu escrevo jurisdição. Me atentei pra isso agora. Quantas não são as palavras que eu nunca escrevi. Magnólia, por exemplo, mas essa eu escrevi agora e já não serve mais de exemplo. Outro dia eu naveguei pela primeira vez no corpo de uma mulher. Navegar é preciso, diria eu. Alguém disse isso outra vez. Não foi o meu primeiro sexo, sexo eu tinha feito antes... Daí eu fico pensando em quantas virgindades, ou seriam virginidades, não sei, eu ainda vou perder. Eu me confundo porque gosto de criar palavras. E me confundo com os porquês. Um é junto o outro é separado e até pra isso é preciso estar atento: tudo muda se alguma coisa muda. Tenho tentado estar, mas eu me confundo facilmente com a falta de virgulas ou com a separação de coisas que deveriam estar juntas, muitas coisas deveriam estar juntas, muitas que não deveriam estão, mas olha eu escrevendo jurisdição novamente. Eu não tenho de novo e outra vez. Nesse caso e em muitos outros. Eu também me pergunto em quais tenho e se você não se perguntou isso agora talvez uma dia se pergunte e, tendo respostas ou não, porque isso é possível, as coisas podem não mudar nunca, se mudarem tudo muda. Eu estou mudando no sentido mais literal da colocação e consigo perceber isso, mesmo que eu não entenda, entendimento é uma coisa complicada de se ter, e isso também aceito, eu estou, entende? Uma pergunta necessariamente não precisa de uma resposta única, podem ser várias ou nenhuma. Há quem diga que nenhuma resposta já é uma resposta, precisaria ser mais entendido do assunto para afirmar, é que muitas das minhas perguntas ainda nem fiz. Se farei? Talvez. Aceite. Algum dia é algum dia e certas coisas podem não mudar. Acredito que tudo é relativo, sim, mas que se a gente relativiza demais os parâmetros deixam de existir e sem parâmetros fica difícil de concluir alguma coisa que não seja só relativa. Muita coisa não é uma coisa só, ironia ou não isso é relativo de cada coisa. Uma pessoa não é uma coisa só, mas tem coisas que só aquela pessoa tem. E se isso tudo está confuso agora é que Javier tocou a campainha e eu tentando estar atento atendi. Qualquer dia eu vou visitar uma cachoeira ou a lua. Talvez isso só faça sentido para a pessoa que me convidou, aceite isso também. Tem coisas que só aquela pessoa pode ter, aquela pessoa que é única, mas que não é única. Metáfora boa não precisa de explicações e a gente acaba cabendo da forma que quiser, que couber. Pés 42 incomodam bastante num tênis 39, isso quando cabem, às vezes nem isso. O fato é que eu vou me apaixonando pelas singularidades e como existem coisas singulares nessa vida. Você não vai acreditar, mas acabou de passar um provável pai com sua provável filha segurando cada um um saquinho com peixes. SINGULAR. Vou ao posto comprar mais cigarros. No caminho fui pensando em como são peculiares as ruas, particularidades mesmo. Quantos peixes em mãos eu deixei de ver? Quantos eu vi de verdade? Olhar não é enxergar. Necessidade é algo pesado demais pra se carregar, sabia? Não sei, é que a mágica do acontecer é mais bonita na surpresa. Surpreender-se primeiro para surpreender depois: "eu fiz isso mesmo?" pode ser uma pergunta interessante de ser recorrente. Tudo é envolvimento mesmo quando não é. Eu já disse dos paradoxos? Pois é, fico meio repetitivo, contudo aprendemos que a repetição pode deixar o repetido diferente. Todo momento por mais igual é unico e tudo que é unico não é igual. Fiz de novo. Tendência é uma coisa que pode ser seguida, ou não, e a previsibilidade pode ser questão de afinidade. Reconhecer é como a chama da reconquista, não que elas acabem e precisem se renovar, ou recomeçar, serem refeitas, nada precisa, lembra? Mas continuidade é uma coisa boa a ser desenvolvida e refazer é construir com alicerces mais fortes, com uma profundidade maior, talvez estabilidade. Estabilidade não tem nada a ver com estagnar. Parar é ação até certo ponto depois fica mais para ponto certo em que se está. FIXO. Sábias são as plantas que se enraízam, mas não deixam de crescer. Criar raízes, ou laços, ou queria você chamar de outra coisa, sinta-se a vontade para dar o nome que quiser, palavras são prisões muitas vezes, é fundamental. O Rô passou aqui e me chamou de menino, disse ter pego o último trem. Estranho pensar que alguém possa tê-lo perdido. Aqui, como em qualquer outro lugar, o trem não espera, os minuto seguem e as estações se renovam, mas é tudo isso muito novo (antigo). Tenho a sensação de que a sensação de perder é muito mais antiga que o trem, muito mais antiga que o antigo que me vê menino, menino que mesmo menino fica antigo quando perde o trem. Eu adoro metáforas, já disse? É que digo tantas coisas que perco os sentidos então. Jabaquara ou tucuruvi? Eu nem me lembro. Ah, eu acredito nos sinais e no ser feliz para sempre, sempre não é todo dia, mas aquele dia, com toda certeza, será para sempre.
Nós estamos no todo e o todo faz parte do mundo,
mas nem tudo junto são todos e os todos não são o mundo.
Matheus Nascimento Carvalho
Santo André, SP - 24/02/2011
13 comentário(s):
E essa mudança de planos, de palavras, de ações e detalhes nos movem para um paradoxo unilateral. O mundo é nosso. Acreditar no novo. Decodificar as razões e desafiar todos os padrões comuns. É eu me perco quando estou dentro de mim.
E esse seu texto fez um sentido danado. beijo
Eu me enraizei e parei de crescer. que burra! pensei que fosse planta e fiquei plantada esperando enquanto o mundo mudava e as pessoas do mundo mudavam. tive que mudar depois, às pressas, por isso não mudei direito. mas você, acho que você tá mudando bem. e pode ser que seu vício não mude (sabe, o cigarro), mas talvez você mude de marca ou salte do trem ou até compre um peixe. aí sim você vai poder olhar pra ele.
Você diante de mim, despido assim, o que eu digo?
Putaquepariu!
Tão perto. Assustei!
Você sumiu! Tudo certo? =D
Alucinante, li quase sem respirar, sem tirar os olhos.
Moço, gosto tanto daqui!
Sabe o que me lembrou um pouco? Caio Fernando de Abreu, conhece?
um beijo!
Eu meio que já me sinto à vontade aqui. Não sei bem o porquê, mas gosto bastante.
Você é maravilhoso, já disse?
Li, reli, treli. É muito bom deixar as mãos só registrarem as doidices que passam pela cabeça e pelos olhos da gente.
Aquele beijo!
adorei!
suave
Ah, pára! que é isso? que texto é esse? e essa parte então?
"Eu nem me lembro. Ah, eu acredito nos sinais e no ser feliz para sempre, sempre não é todo dia, mas aquele dia, com toda certeza, será para sempre."
Posso te morder?
Flores.
Quero mais... =D
Agora vc me atiçou... Quero mais escritos seus, com urgência...
Afinal, pelo que sei, nada mais te prende, nem uma cidade, nem um futuro, nem um corpo...
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