Ela oscila nos próprios sonhos escutando sempre uma voz firme dentro da cabeça: vai! Mas nunca há quem aponte a direção, não há caminho que se siga. Pálida, acorda sempre irritada com a luminosidade do quarto, e não ousa fechar as cortinas, nunca, por mais áspero e vulgar que seja o seu reflexo na janela ela gosta de se imaginar despida assim, entregue a cama, trocando fluídos com os lençóis úmidos. Maquiagem borrada e, na cabeça, um “o que foi que eu fiz ontem a noite?”. Uma estranha dentro no próprio ninho. Dedilha a sapatilha de criança pendurada na parede sabendo que já não é mais nenhuma bailaria de conto de fadas, sabe mesmo que sua vocação é para puta. Puta mulher, não mulher puta.
“O que nós fizemos ontem a noite?”
Escandalizava-se com as meninas do colégio classe alta abastada. O dinheiro era sujo, e o seu jogo também. Meninas que desfilavam dotes. Durante muito tempo andou sem tato para as futilidades advindas dos círculos sociais. Era mais, sempre fora - “Do que é você está falando mesmo?” - Jovem e sexy, mordiscava os lábios durante as aulas de francês enquanto rapazinhos bobos e desavisados, tomados pela beleza do sotaque, a idolatravam em pensamentos floreados. A maioria dos tidos fortes busca uma beleza burra e vazia da qual ela nunca se aproximou. Ela é bonita naquele esquema de bonita > linda > bonita*. O francês rebuscado e suas curvas intelectuais a permitiam bulinar com o olhar todos os seus amantes, só garotos, prezas fáceis, vítimas do encanto de uma menina-moça. Um algo comum pelos corredores que passou.
“O que você fez comigo ontem a noite?”
Grita feito Francine o descontentamento momentâneo, os poucos orgasmos que teve e por sua a lucidez complacente. Fica se perguntando se essa, a lucidez, não é uma forma mórbida de encarar os fatos. “Encare os fatos de vez em quando.” Ascendente em escorpião, descende de uma linhagem rara de mulheres sem mães que destilam seu doce veneno acidentalmente. Ingenuidade pecaminosa e avassaladora de uma raçazinha peculiar e iluminada.
“(.....)”
Irremediável, toca na carne sensível do tesão eloquente com fino trato. Em meios ao silêncio dos seus pensamentos constrói com perfeição imperfeições paradoxais. Esboça acordar vestindo uma camisa só de calcinha, preparar um café e olhar o seu homem deitado pela fresta da porta. Ele olha de volta. Esboça! Mas vai ver o esboço não esboça mais. Infortúnio dos que têm tudo e não encontram as circunstâncias. Machuca-se na tangência dos recortes vividos, mas não deixa de vivê-los. Ela não é sexual, o sexo não a faz. Sexualmente é bom, mas estar dentro nunca foi estar junto. Ela se deixa escapar em por menores. "Você já foi abraçado?" Respiração conjunta de peitos colados. Ser um, ser dois, ser mais. Ela é mais, sempre fora. Entrelaçar de mãos. Vontades implícitas nos gestos explícitos. Não é preciso força, não é preciso jeito. Não se deve ter medo. Apegue-se. Seja pra CARALHO.
Garotos, quem vive em arte transcende o viver.
Garotos, quem vive em arte transcende o viver.
Meu cigarro acabou, vou dormir.
O que você fez comigo ontem a noite?
30 comentário(s):
Quem vivem em arte transcende o viver. Não poderia ser mais poético e mais verdadeiro...
Não sei como você consegue, mas o seu talendo leva qualquer um a sentir como se estivesse dentro do quarto, dentro da alma dessa sua puta mulher.
Mil beijos.
Acho que ela tem o que muitas gostariam de ter ou ser, quem sabe?
Teus textos me intrigam e os comentários também. Gosto deles.
Um beijo! =)
Nossa, primeira vez que vim aqui, eu gostei muito do texto, intrigante...
me deixou a perguntar, o que fizeste com ela ontem a noite? rs
Um Abraço!!
Precisamos de mais cigarros.
Aêe!
Belo tudo isso. Aprecio de montão -q uashuahsuha
Mas ow, na boa, eu sei o que você fez ontem a noite uasuahsuhaus
Bom ler isso, cara.
Axé, hermano!
Tem muita gente sabendo o que você fez naquela noite.
Me encontrei em cada linda. Haja vida!
(até no ascendente em escorpião.)
Pra caralho.
É só o que dá pra dizer.
:*
Talvez a gente descubra na próxima noite, se restarem cigarros. :}
Eu também esboço coisas assim. Mas só esboço. Entenda, meu ascendente é outro...
Ah, não sei como dizer isso, mas é bom ter você sempre aqui. Você estava aqui desde o início sabe? É como um pedaço de pão, quando eu me perco de casa.
Por mais que digam que a "culpa" é sempre do homem, devido a um conceito cultural da sociedade em si; ninguém sabe o que muito cara passa, sozinho, andando por aí sem rumo pela madrugada, enchendo a cara de bar em bar, desabafando com amigos e sofrendo os diabos por causa delas... Que sabem e conseguem ser cruéis na medida e no ponto, certo.
Valeu pela visita. E valeu pelos comentários. Se quiser seguir, me avisa que faço o mesmo.
Oi Matheus, tudo bom?
Você lá no Norecreio ontem e ai vim aqui retribuir, mas acho que acabei ganhando um blog a mais para ler.
Gostei das tuas palavras unidas. Certeza.
Esse último paragrafo, que ela olha o homem pela porta, eu consegui imaginar.
Adorei.
Bjs!
Gostei de como você se expressa com as palavras. E o que fizemos, hm? rs
Seguindo.
Gosto da linguagem
Matheus, estou impressionada. Você escreve super bem, menino!
Amei aqui!
É impossível não voltar!
Um beijo!
Acho que eu já li esse texto umas seis vezes e não canso.
Gosto muito das coisas que escreves!
Tenha um final de semana maravilhoso!
Beijos!
Não sei o que dizer, me deixou extasiada.
Li, reli. Impressionante!!
A realidade escancarada na palidez de menina que sonha e ainda dança ballet, se transforma em dor. Mulher de faces/fases o espelho coerente em sua mente complicada. Procurando em corpos que não lhe empregam gosto algum, apenas a lembrança gostosa do abraço. Do amor, ela não sabe nada. Além do que ainda guarda no peito o dissabor exagerado da culpa de não entender a perfeição ingênua de sua insatisfação. Não sabe para onde vai... Nem se ficará... mas sente o peso de sua vida pulsando na cabeceira da cama.
Divino.
Um beijo
Escrita impecável. A descrição nos leva a visualizar cada cena. Isso é que é um bom texto. Parabéns!
beijos
Amei o texto (muuuuito mais emocionante que os meus últimos dias de férias... ontem a noite eu toquei violão...)! Adorei o blog e estou seguindo! Se puder, dá uma passada no meu pra ler o primeiro capítulo da minha nova história chamada The Truth: Suas memórias não estão mais seguras! Lê e comenta depois me dizendo o que achou!
Beijos
www.filosofiafucsia.blogspot.com
estar dentro nunca foi estar junto.
penso sobre a tradução que fez de algum sentido, de alguma agonia ao amanhecer. de alguma resposta.
bonitas palavras. te achei sem querer.
Na procura incessante de alguém que, como eu, flutua no mundo das palavras, na loucura de todos os dias, esbarrei-me sem querer com o seu blog, e não teria outra palavra que descrever-me-ia melhor agora senão, fascinada...
adorei o texto
Vou ter que ser repetitiva: você escreve muito bem. Nada como um texto sincero, sem tentativas forjadas de escandalizar. Seu texto me escandalizou pela beleza. Me lembrou teatro, sabe?
:*
"Sexualmente é bom, mas estar dentro nunca foi estar junto." incrível.
Uauuuu!^^
arrasou! =)
sempre é bom ler, reler...Escreve mais?
beijos. bom final de semana
desculpe, mas apenas consegui prestar atenção na imagem ao lado do teu nome.
Eu achava que já tinha comentado aqui, mas lembrei que comentei foi contigo. Paris, eu te amo e tudo o mais.
Você está cada vez melhor. E é uma pena que esse cada vez demore tanto de acontecer. Mas já não me importo, porque sei que, independente daqui, você acontece. E isso me faz feliz.
Você é. Pra caralho.
Dois beijos.
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