"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade.
Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Perro,

Os dias andam ensolarados. Tem dias que até chove, mas na maioria faz sol. Hoje por exemplo fez sol, e ontem também. Anteontem choveu, de levezinho, coisa pouca, sabe? Mas comparado com hoje e ontem posso dizer que choveu. Maluco esse tempo, eu sei. Outro dia vi na tevê que esse é o verão mais louco que já tivemos. Sol e chove: sol-sol: chove-sol: tresloucadamente sem parar. Aviso não há e os mais precavidos têm andado com o guarda-chuva em mãos. Acho um porre carregá-lo pra cima e pra baixo, mas é uma puta chatice quando a gente se molha, daí que nesses dias estranhos vamos vagando por entre inconvenientes. Eu gosto de variar. Estou fazendo estágio pra moça do tempo. Mentira, mas tenho acertado tudo às avessas igual você costumava fazer. Lembro bem das saídas adiadas pela sua falta de senso meteorológico. Perro, você ficava tão fofo fazendo aquelas adivinhações furadas que adiar nossos programas ganhava toda uma conotação especial. Sinto mais falta delas do que quando saiamos. Desculpa, mas é que sua cara de lerdo quando o primeiro relâmpago estourava no céu no dia em que você jurando por Deus disse que teríamos sol era impagável. Tanto que, hoje, mesmo que eu pagasse as maiores fortunas do mundo não conseguiria tê-las de volta. E olha, eu pagaria.

Saudades. Sei que parece esquisito depois de tanto tempo eu falar em saudade. Ainda mais hoje quando as feridas parecem fechadas, mas esse é o verão mais louco que já tivemos, não disse? Está tudo diferente. Outro dia me peguei abraçada num retrato nosso, antigo, desbotado até, lembrando das tardes que passávamos juntos. Me vi tão fraca. Dessas que choramingam momentos enquanto a dor não cessa. Tão, que sua voz era bem nítida nos meus ouvidos. Pude ouvir você dizendo alguma coisa sobre eu me levantar do chão e parar de ser boba, secar as lágrimas e ir ver o sol. E de como o riso me saltou à cara só de imaginar que você estava errado de novo. Chovia.

Você me fez tão forte, sabia? Tão, que fiquei mal acostumada querido. Sua voz sempre me segurando e ensinando. Do acordar ao pegar no sono, você me embalava. Mesmo quando não dormíamos juntos você dava um jeitinho de aparecer mais cedo, preparava o café e logo gritava da cozinha pra eu levantar. Você me levantava em todos os sentidos e a gente sabia dos efeitos que tínhamos um no outro. Da felicidade, do sorriso, do bem-estar e daquelas coisinhas miúdas, despropositadas, mas que muito valiam pra nós. Gostoso saber que fomos tão recíprocos numa reciprocidade diferente. Éramos desmedidos, descabidos e nunca tivemos uma forma de exata de sermos juntos. Fomos exatos um no outro, com o outro, e em separado. Como se eu terminasse em você bem onde você começava em mim. Um ciclo. Meu vício.

Um dia sua voz não me veio. Nesse dia cinza escuro não fez sol nem choveu, até o tempo resolveu dar um tempo quando o menino silenciou. Desde então te mando flores, todos os dias, em uma homenagem póstuma ao que fomos. Não creio que possamos nos esquecer, superar talvez, esquecer jamais. Ainda que pudéssemos, não gostaria. E vou pra sempre falar por nós agora que teus silêncios me dilaceram o peito em pedaços que acabaram ao relento como as únicas cinzas que você me deixou.

Preciso dizer que te amo? Ainda que não precisasse eu diria. Te amo.

Luna.

25 comentário(s):

(: disse...

segunda-feira, 15h30. após um dia ensolarado e quente, a chuva fez questão de se mostrar. para me punir pela falta de guarda chuva, me molhou até a última gota.




e eu gostei. (:



:*

(: disse...

ah! the album leaf explica.




:)(:

Nathalia disse...

por aqui, rolam umas tempestades medonhas.

sobrefatalismos disse...

Sol, chuva, saudade, amor. Tematicas dificeis de trabalhar, desenvolver. Como consegue?

Mariana Andrade. disse...

Há tempos a chuva não cai como rosas sobre mim, e o amor não vem lavar-me a alma.
senti como se tudo isso acontecesse, lendo-te.
voltarei sempre.

Jaya Magalhães disse...

Amores serão sempre amáveis. É o que Chico diz e funciona sempre comigo. Só que acho que as coisas devem ser trabalhadas. Acabou, acabou, entende?

Isso de Luna querer continuar a falar pelos dois mesmo quando já não existem mais, me soa meio frustrante. É bonito, mas é ardido demais. De vez em quando deixar de insistir é essencial para manter a beleza do que já foi.

No mais, tua escrita foi um charme, nesse.

Um beijo, Matheuzim.

Luciana Brito disse...

Amar é bom, ter pequenos e grandes momentos juntos é ótimo, mas quando acaba, fica um vazio desgraçado. Porém, é preciso superar. Não é esquecer, é só superar, virar lembrança boa e eterna.

Por aqui faz sol-sol-sol-chuva-sol... em um ritmo frenético de calor sempre.

Teu texto foi lindo.
Beijo!

[P] disse...

É para não me sentir tão dilacerada que eu mesma sopro tempestades, para não ouvir os silêncios. Ainda que em dias ensolarados. Ainda que só restem dúvidas. Ainda que eu insista sozinha. Pelo menos até eu me cansar... [isto se chama "teimosia", eu sei]

Gabriela Castro disse...

"Fomos exatos um no outro, com o outro, em separado. Como se eu acabasse em você bem onde você começava em mim. Um ciclo. Meu vício."
Gostei muito do texto todo, mas desse trecho em especial.

Sabe, fiz umas mudanças lá no blog. O "Não solta a minha mão nunca, tá?!" agora é "Segredos de Travesseiro". O conteúdo continua o mesmo, mas agora o blog está mais com a minha cara. Passa lá quando der ;)
beijos

disse...

Gozado ler-te agora...lá fora gotas caem no asfalto, aqui penso saudosa em muitas coisas e muita gente...

Senti saudade dos amigos blogueiros...obrigada por passar por lá...pelo meu cantinho de devaneios...

Estarei por aqui...SEMPRE!!!!

Bjosss com sentimento de verão louco no ar...e a chuva continua caindo...

Laysla Fontes. disse...

São tão simples cartas de amor. Porque pra mim é, não é, Nasca?! Eu gosto do simples. E gosto também dos detalhes que fazem um par, único. Coisas do tempo, pra Luna e Perro. Pra eles, quanto tempo o tempo tem?!

Foi minha primeira visita.
Volto!

Beijo, beijo.

All You Need Is Love disse...

E como é que tá??! =)

Já esotu na nova casa:

http://allyouneedislove-janis.blogspot.com

Um beijo.

Jaya Magalhães disse...

Saudades da tua escrita.

Nathalia disse...

eu detesto o verbo no passado.

. disse...

"E vou pra sempre falar por nós agora que teus silêncios me dilaceram o peito em pedaços que acabaram ao relento como as únicas cinzas que você me deixou.

Preciso dizer que te amo? Ainda que não precisasse eu diria. Te amo."

São textos impecáveis e impagáveis como esse que, apesar de absurdamente tristes, fazem com que eu quase sorria. Obrigado por todos esses "quase".

Abraço.

Alana disse...

não suma, Matheus. o lado do meu cérebro que aprecia as coisas senta falta! rsrs
um beeijo.

Paloma. disse...

pelo menos essas palavras vão ser sempre bonitas.

Vanessa Romão disse...

Ainda que não precisasse.



:*

Amanda Rodrigues. disse...

Que lindo!

Gabriela Castro disse...

Saudade daqui, dos seus textos. Não nos abandone! hehe
beijos

Jaya Magalhães disse...

Escutei Legião e lembrei de você.

Paulinha disse...

Esses verões loucos, deixam nós mais loucos ainda.
E ai que nos pegamos em um momento como esse, de fraqueza.
Mas se acabou é melhor só guardar o que foi bom e procurar em um outro ser coisas melhores.

Adorei cada linha do seu texto, acho que você nao deveria ter "guardado" os outros textos.. me deu sede de ler mais e mais!

Lih disse...

Você não posta mais?
Volta, volta!
Saudade de te ler. :T

Um beijo!

Tangerina disse...

me vi nas linhas todas.

Jaya Magalhães disse...

Apagou tudo. Fechou as cortinas. E agora?