"Não querer nada de diferente do que é, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade.
Não só suportar o que é necessário, mas amá-lo"

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Um súbito seu

Me peguei olhando para fora do quarto. Vi sobre a mesa uma garrafa de whisky quase vazia, dois copos bem cheios ao lado de um maço todo miúdo de um cigarro qualquer ainda por fumar. Lembrei de como era seu cheiro misturado à fumaça de um trago e de como sua nódoa teimava em me manchar o pulmão. Eu respirava você impura, com todos os jeitos e defeitos e a gente ia brincando de se consumir.

Corri até lá ansioso por ver você sentada no sofá cortando as unhas cantarolando um tango qualquer. Quantos tangos nós dançamos mesmo? Sei que não foram muitos. Minha falta de ritmo jeitosamente desengonçada não permitia maiores apresentações e você ficava toda bravinha resmungando pelos cantos ter encontrado um cara estranho para ficar. Eu te achando uma chata, criatura de Deus, perfeitinha de mais, complicadinha de mais. Me escondia com aquele meu discurso de homem feito, sendo na verdade uma criança fantasiada de adulto com medo do escuro e tudo mais, pedindo que segurasse minha mão e me fizesse cafuné sempre que desse e você quase sempre atendia. Quando não, fazia um charme danado negando minhas investidas, me ignorando sumariamente e tudo porque eu falava sobre minha besta insegurança e o futuro que viria.

Sufoquei. Tropecei até a sacada buscando um pouco de ar. Era começo de noite e o céu estava estrelado. Caía uma chuvinha bem leve que gelava o ar e a garganta e me confortava o peito. Soprava uma brisa leve, aconchegante, musicada pelas buzinas dos carros e pelo barulho do avião que passava, iluminada pela cidade em alerta, prédios, casas, postes, faróis, todos aqueles ingredientes de um sábado à noite. Aquilo foi tão intenso que te reservei uma lágrima, ou duas talvez. Escutei todo o silêncio gritado em mim suplicando você.

A lua estava como naquele dia do rancho que a gente deitou na grama e ficou conversando besteiras. Você inventava constelações e eu balançava a cabeça dizendo que “sim, essa é famosa” e a gente ria de como parecíamos dois bobos deitados ali. Íamos tatuando no céu, com a ponta dos dedos, nossos nomes e um monte de frases, chegando ao máximo da estranheza e breguisse. Ela flertava comigo como você costumava fazer. Carinho, ternura e cumplicidade. Eu amava os seus olhos e a lua que você era.

Num descuido uma de nossas estrelas caiu. Passando por mim cadente, cadenciando você dentro de mim. Imortalizando o céu que nós criamos, cheio de nomes tatuados no peito.

7 comentário(s):

Jaya Magalhães disse...

Esse, meu bem, é o melhor texto seu que já li. Você ultimamente tem brilhado, nesse novo palco. Não perco estreias nem reprises.

Volto para comentar, mas precisava dizer isso.

Permita-me: você foi exato, nessas linhas.

gabs. disse...

"você ficava toda bravinha resmungando pelos cantos ter encontrado um cara estranho para ficar."


adorei esse trecho, achei 'possivelmente possivel' isso acontecer naturalmente, e até cômico... e eu concordo com a Jaya, você foi ímpar nesse texto. muito muito muito único.

um beijo.

Alana disse...

Isso de casa nova ta deixando você insipirado, não é, Matheus :}
acho tão bonito o modo que vc investe em detalhes 'o' enfiim...

beijo.

Guimarães Teto. disse...

Ow.. tipo, super fã \o/ xD
Quando a gente se ver não esquece de tocar nesse assunto de blog. Ah.. eu vou lembrar de qualquer maneira.

Te vejo irmão!
Axé

Natália Corrêa disse...

O que você escreve é tão real, tão humano, tão cheio dos acertos e erros que todos nós cometemos (ou vamos cometer um dia). E ainda assim é tão poético, tão puro, tão desejável... Me fazer querer viver mais, para viver um pouco disso tudo, pra ser um pouco dos personagens seus, que sonham tantos sonhos meus.

Isadora disse...

Lindo, Nasca :| Uau.

Ludmila Melgaço disse...

Santa Inspiração!
Liiindo!